quarta-feira, 9 de maio de 2018

Solamento + Amadurece e Apodrece



Eu posso ser muito idiota
Muito negativa
Muito imbecil
Eu posso ser muito otimista
Muito sorridente
Muito varonil

Eu posso ser a rainha do planeta
O príncipe encantado
A vilã da novela
Eu posso ter um monte de dinheiro
Viajar o mundo inteiro
Te chamar pra ir comigo

Mas nada disso vai fazer você me olhar
Mas nada disso vai fazer você se apaixonar por mim
Se o que eu tenho e o que eu sou não valem mais
Não acho justo a vida me ensinar
De um jeito tão cruel
Como se fosse só assim pra entender
Que você não é pra mim

Eu posso até te levar naquele show
Arrumar o meu cabelo
Te olhar daquele jeito
Eu posso ser quem eu nunca fui na vida
Ser aquela bem bonita
Que você viu na revista

Eu posso até te fazer aquela música
Te levar pra ver a tempestade no mar
Eu posso ver o que tem dentro de você
E te dizer o que existe em mim
E te amar de um jeito infinito

Mas nada disso vai fazer você me olhar
Mas nada disso vai fazer você se apaixonar por mim
Se o que eu tenho e o que eu sou não valem mais
Se do meu jeito não consegui te alcançar
Agora é aceitar, e me silenciar
E entender que eu não sou pra você

...


Eu aprendi
Muita coisa que eu desaprendi
Quando você resolveu me atravessar
E me colher do galho que me deixava
Suspensa no ar
No ar

Toda pureza morreu
Quando foi que você cresceu?
Por um tempo eu te perdi
Ou foi você que se escondeu?

Toda pureza morreu
Quando foi que você cresceu?
Por um tempo eu te perdi
Ou foi você que se escondeu no ar?

terça-feira, 16 de janeiro de 2018

Ich danke Ihnen

Quero começar dizendo quanto te agradeço. E, não, não pelas lições aprendidas na marra – mesmo porque aprendê-las é mérito exclusivo meu. Mas por todas as coisas pequenas e grandes que você fez, não necessariamente por mim, mas que me contemplaram, brilhando em vida. Eu te agradeço pelos cuidados, abraços, carinhos e afagos. Pelo amor quente e molhado. Incrível o bastante para me fazer acreditar que era real e verdadeiro. Agradeço pelo nada com que preenchemos tantas tardes, noites e manhãs. E, dessas últimas, agradeço com ternura os nossos cafés tão infinitos e cíclicos quanto o amor que desejei pra nós. Agradeço seus sorrisos, imensos e bonitos, dando razão aos meus dias e planos de vida. Sou grata pelas palavras, mesmo as despidas de verdade, porque me ajudaram a aceitar o que eu realmente quero da vida e agora posso seguir sabendo um pouco mais de mim. Agradeço pelos sonhos de comunhão plena de vida, pela ambição e pelo simples, pelo voar e pelas viagens cheias de fotos iguais. Mais do que tudo, ao seu lado, tudo parecia possível e ao alcance das mãos. Agradeço por quando sua confiança em mim foi o que me empurrou para frente. Eu te agradeço pelo sonho e pelo sono, profundo e extasiante, nos limites vagos do seu sofá depois do café. Eu sou grata por absolutamente cada pequena coisa que me ensinou no amor. Por desvendar em mim a boba apaixonada que inegavelmente nasci pra ser. Agradeço por acabar com as minhas dúvidas sobre querer ou não constituir uma família linda e amada e poderosa, o porto seguro dos fins dos dias. Agradeço pela nossa família. E por ter conquistado a minha. O sofá da minha vó, as viagens e todas as festas e churrascos de domingo. Deus sabe como isso sempre foi o meu sonho. Foi tudo importante e valioso. E absolutamente nada do que veio depois – na verdade, antes e durante, como sabemos – terá o condão de minar essa imensa caixa de presentes que você me deu. Eu não vou jogar nada fora. Agradeço pela oportunidade de tentar ser, na sua vida e para você, alguém com estes mesmos significados. Com sorte, parecidos. Tudo bem se não for. Deixo meu ego pra lá.


Ouvindo https://youtu.be/gD5qJlVbH94  

terça-feira, 2 de janeiro de 2018

Quarta à noite

Voltando pra casa vi um casal de rapazes. Sentados na calçada e de mãos dadas, cada um fumava seu cigarro, alternando entre os tragos um sorriso absolutamente abestalhado em direção ao outro. Me deu saudade da doçura e da paixão que despertam dos encontros marginais. Engraçado como o terreno mais fértil para germinar amor ainda é a mais repleta falta de condições para vivê-lo. 

sexta-feira, 23 de junho de 2017

Querido diário

Pensei que ia ter uma noite incrível. Me preparei para sair, tomei um banho longo com direito a depilação e hidratação de cabelos. Escolhi um vestido que ainda não tinha usado. E afoguei minhas mágoas num sinal de superação e confiança num futuro próximo e melhor.
Durante o dia, tive bons momentos. Leves momentos, de risadas francas, e decisões miúdas, aparentemente inócuas e nada lesivas - não eram.
Ao fim do dia, minha única e suficientemente grande [para ocupar-me inteira] expectativa era a de pegar sua mão, sair porta a fora, caminhar até o elevador e, dentro dele, te beijar e abraçar  provocativamente, mas de uma forma discreta; ainda com a sua mão na minha, ir até o carro, te deixar dirigir até nosso destino secreto, comer, conversar e rir na sua presença como se o resto pudesse esperar.
Mas não pode, não é mesmo?
Não mais do que esperou.
O resto é, na verdade, a parte primeira. Principal. Prioridade. Urgente. Emergente. Especial. O antes de mais nada. O tudo.
Se não for nada disso, ainda é alguma coisa antes de mim. Ainda é algo que valha a tua desfeita, a tua tempestade no jardim de flores delicadas que terminam despedaçadas quando você para. O jardim sou eu. O resto.
Mas, tudo bem. Eu nunca ouvi falar de tempestade que se impede pela delicadeza do que quer que seja. Afinal, tempestade é água. E água é quase sempre assim. Vem pra limpar mesmo. Só remanesce o que a destruição não puder levar.
O jardim vira barro batido e respingado. As flores se revelam em pétalas marrom-manchadas distribuídas por toda parte.
A água que este jardim queria chegou e trouxe abalo. E agora - não é uma questão de querer, sobretudo o jardim precisa - passa a demandar cuidados. Cuidados cada vez menores, mas milhões de vezes postergados até formarem-se o leviatã da dúvida.
E a dúvida. A dúvida é como a água. A depender de sua potência, só sabe fazer destruição. No jardim.

segunda-feira, 29 de maio de 2017

Über leben

Vamos combinar uma coisa, apenas para partirmos do mesmo ponto: viver não é fácil. Isso de ser grato e não viver reclamando de barriga cheia. Isso de aprender a enxergar a miséria do outro para poder respeitar sua existência e valorizar a própria. Isso de não se abater pelas dificuldades. Isso de agradecer ter mãos e pés e todos os dedos. Os olhos. Ouvidos que ouvem. Saca? Tudo isso que passa batido demais pra gente dar o nome de motivo pra ser feliz. Tive uma sacada muito genial esses dias. (E com isso quero dizer muito besta, muito óbvia). Ninguém tem tudo. O mundo é relativamente justo, se você considerar as desproporções das coisas. A maior parte das pessoas não apenas quer como precisa de mais dinheiro. E essa dinâmica costuma pressupor que dinheiro, na verdade, é um pó mágico capaz de resolver tudo. Todo mundo acha que preferia sofrer em Paris. Mas isso é uma falácia. Quem já experimentou um dedinho do bom e velho sofrimento sabe que não há transferência geográfica que apazigue essa pancada no peito que é o estar triste. Mas. Enfim. Voltemos ao “ninguém tem tudo”. Ninguém tem. Pessoas ricas, trilhardárias, continuam humanas e necessitadas de relações sociais que supram suas inseguranças de criança em forma de gente grande. Continuam vulneráveis a maus súbitos em forma de uma morte sem adeus. O número 1 da Forbes ainda precisa ser feito feliz. Ainda precisa amar. E, pasme, que não seja feito feliz e nem amado, iates e grifes não farão as vezes. Sim, tem razão. Deve haver quem não ligue pra amor e felicidade humana. Estes certamente vão ter mais tempo para procurar outras coisas. Mas, se suspeito bem, não encontrarão estas outras coisas. Não todas! Bem, muitas pessoas não têm nada e é aqui que falha minha tese. Mas, se voltarmos ao ponto inicial, pareço continuar no caminho certo: viver não é fácil. 

segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

Como seríamos se fossemos como gostaríamos de ser

Vivemos dizendo às pessoas que elas precisam parar de ser trouxas e passar a revidar todo santo erro do qual saem vítimas. Diariamente refletimos que devíamos ser pessoas piores. Que engolir aquela indireta foi o maior atestado de idiota que poderíamos ter dado. Que manter um relacionamento depois de sofrer tanto é a maior prova de que merecemos mesmo sofrer porque, uau, uma pessoa melhor no nosso lugar jamais permitiria. Pensamos cotidianamente que somos fracos por perdoar aqueles erros que julgamos serem fáceis de evitar. Não raras vezes desejamos ser capazes de não nos emocionar via das lágrimas com cenas bonitas demais ou tristes demais. Exercitamos todos os dias a habilidade de ignorar as mazelas alheias em nome da prevenção das nossas. Hoje, depois de me pegar me incitando estas coisas, me perguntei: por que estou me incentivando a não ser o que eu mesma considero como uma pessoa boa? Perdoar é ruim? Superar uma dor é fraqueza? Não perder o dia pensando numa frase infeliz ou mal dita é defeito? Olha. Não me entenda mal. Não estou dizendo que capacho dos outros é a última moda em Paris. Mas compreender as humanidades, das quais nós também sofremos, é vital. Não estar disposto a seguir a vida e perdoar um erro que lhe dilacerou o peito, nem sequer ao menos querer ser capaz disso, isso, sim, não pode estar certo. Penso eu que estas bagagens são pesadas demais pra serem carregadas ao túmulo. E, no final das contas, somos todos crianças, marinheiros de primeira viagem. Já parou pra pensar que ninguém já passou por aquilo até passar? Você pode ser o pic@ das galáxias e acertar de prima. Mas te garanto que a probabilidade de errar numa coisa que nunca fez é bem maior. Por isso não devem existir erros absolutamente imperdoáveis. Okay, pessoal! Existem os canalhas. Existem os que vão nos fazer de pouca coisa quantas vezes puderem. Mas por que isso significaria viver amargando esse mal-estar pelo resto da vida? Passamos tempo demais aspirando os defeitos que nos machucaram. Talvez na intenção de não deixar que repitam a dose. Mas ser bom é bom. O amor é uma coisa boa -Repito isso como um mantra. Porque, poxa, parece que amar às vezes dói. Será mesmo que não é melhor ser indiferente a tudo? Bem. Para responder esta última pergunta, meu convidado especial é: você. Experimente o deleite de sorrir por amor ao menos uma vez e aí me conte se era melhor mesmo ter sido indiferente.

quarta-feira, 5 de outubro de 2016

Sobre amar e ser amado

A gente sempre pensa que amar é muito bom e que ser amado é a sensação mais gostosa da vida.
Vou direto ao ponto: ser amado é difícil pra caralho. E amar é muito foda. Não é fácil receber as manifestações de amor do outro. Manifestações que não necessariamente vão corresponder às suas. Talvez correspondam, inclusive, e muitas vezes, ao seu conceito de anti-amor. Pensar isso é bizarro.
Amar também não é nada fácil. Não é tarefa simples a de destilar o amor do sentimento de posse. Do comodismo, do hábito. Não é nem um pouquinho fácil amar repetidamente alguém que, como ser humano que somos todos, erra dentro e fora do relacionamento.
Mesmo assim, amar e ser amado, alternativa ou cumulativamente, continuam figurando o ranking mundial de metas de vida.
Por que será?
Não sei.
Mas não troco a sensação de amor convicto pela garantia de que estas agruras do amor desapareçam.
Penso que amar defeitos ou, minimamente, suporta-los com afeto e paciência seja uma genuína expressão de amor verdadeiro. E é preciso amar para alcançar esse estágio, inclusive.
Rir das loucuras do parceiro, não por deboche, mas na tentativa de imprimir alguma leveza ao insano, talvez seja também alguma boa maneira de ser compassivo e amoroso com quem elegemos que mais merece compaixão e amor de nós.
Amar é muito difícil. Ser amado é alguma coisa tão árdua quanto.
Mas eu sigo confiando no ranking. E faço parte dos atingidores de metas mundiais.