segunda-feira, 21 de março de 2016

Das três* fases do amor

- Você me ama por que você quer?
- Não. Eu não diria assim.

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Você me perguntou se eu te amo porque eu quero. Minha cabeça respondeu prontamente que não. Reconsiderei. Respondeu que amor a gente alimenta. Mas só depois que nasce, né? Respondeu que é planta que se agua, que a gente deixa tomar Sol. E cuida todo, todo dia. Às vezes, a gente conversa com a plantinha, não conversa? Então. Eu não te amo porque eu quero, embora continuar te amando dia após dia seja um processo racional de manutenção emocional. Nossa, Amanda, como você é maluca. Não sei. Mas faz sentido que seja assim pra mim. O amor (paixão) é essa explosão que desponta na gente, desarrazoado, às vezes descabido, quase sempre dono de si e de mais nada quando chega. Mas não é essa sua forma estática. A explosão faz barulho demais: a gente nota que o amor chegou. E daí em diante precisamos permitir que ele fique em casa. Digo. O amor é essa coisinha que chega desautorizada, mas discreta, não bate palmas, mas faz cerimônias pra sentar no seu sofá. E aí, mais dia menos dia, está lá o amor deitadão com as pernas esticadas e o controle da TV colado nas mãos. Veja bem. Quase sempre a gente ama sem querer (sem provocar o processo de apaixonamento). Só que continuar amando envolve desejo, vontade e, mais que os anteriores, querer. Então, se por um lado, eu não te amo porque eu quis (com conotação de escolher) amar você, te amo a cada dia um pouquinho mais somado ao tanto de ontem porque eu quero (decido) amar você hoje enquanto [também] me projeto te amando amanhã! E é isso. Verdades sejam ditas. O período permissivo também não é para todo o sempre duradouro. Como planta que é, o amor se enraíza e aí. Aí já viu. Você puxa daqui, puxa de lá, e as raízes puxam de volta, no sentido oposto e pra baixo. Quer dizer que o amor chega despretensioso, apodera-se autorizado do que há para dominar e depois não sai nem a gritos e vassouradas? É. O amor é esse cara. Por isso é bom a gente cuidar do amor que a gente deixa plantarem na gente. Do amor que a gente rega no peito com a água da razão. Porque depois que razão vira raiz, raiz que vira daninha dá muito trabalho pra arrancar.