sexta-feira, 26 de junho de 2009

Cem anos de perdão.

[...]
Eis-me afinal diante dela. Paro um instante, perigosamente, porque de perto ela é ainda mais linda.
[...]
Nunca ninguém soube. Não me arrependo: ladrão de rosas e de pitangas tem 100 anos de perdão. As pitangas, por exemplo, são elas mesmas que pedem para ser colhidas, em vez de amadurecer e morrer no galho, virgens.


Clarice [MINHA MUSA E NENHUM POUCO MACABÉA] Lispector.

quinta-feira, 11 de junho de 2009

Mais uma lição

'Nem faço do meu presente uma espera do futuro'. Uma certa tia me falou isso numa conversa. Achei o máximo. Essa fala me deu beira para uma auto-avaliação. Que resultou numa, ligeira, sensação de hipocrisia. Daqueles hipócritas inconscientes, sabe? Veja bem. Eu prego e me valho do bom carpe diem, contudo pude constatar que em alguns momentos não há um real aproveitamento da minha parte. Cruamente, a verdade é que me vi fazendo do meu presente uma espera do futuro; e, convenhamos, isso não é mesmo aproveitar o dia. E essa reflexão foi mais além. Presumo que possua as caracteríscas essenciais pra exercer de forma ortodoxa meu carpe diem: eu aprecio ariscar e, de fato, não me arrependo de nada do que faço, nem que eu venha a ver o ato como a maior burrada da minha vida, eu não me arrependo. Acho o arrependimento desnecessário. Não dá pra mudar nada mesmo e você ainda toma lições de seus erros. Se arrepender pra quê? - Pra alcançar o perdão divino? Hum... er. Bom essa já é uma outra questão...
Saber arriscar e não se arrepender são dons que sinto em mim. E acho que era isso que me faltava. Ainda que eu não vivesse sob regras [e já fosse muito libertina], não tinha percebido que permitia que alguns dos meus mais profundos desejos limitassem a plenitude de outros. A vida é tão rara para ficar se impondo barreiras. Eu não vou viver fazendo do meu presente uma espera do futuro. A vida é agora, e 'é muito pra ser pouco'. Desejar que algo aconteça não precisa ser a tortura durante a espera.

CARPE DIEM.

quinta-feira, 4 de junho de 2009

No frio da madrugada

Mário, de pijama, escrevia uma carta no computador, quando tocaram a campainha. Ele, que estava muito concentrado no que escrevia, demorou a perceber que havia alguém insistente na porta. Tomado pelo nervoso da interrupção, jogou o mouse, que segurava firme com a mão suada, levantou-se desajeitado da cadeira e abriu a porta do quarto com violência. Mário desceu as escadas, irritado, se preparava para expulsar a visita, fosse quem fosse. Chegou até a porta, com suas pernas que agora tremiam pelo nervosismo, e destrancou o mais rápido que pôde. Abriu a porta ainda violento, mas já não havia ninguém. Deparou-se com a rua deserta, ali só se ouvia o vento gelado vagando sem piedade pelas ruas escuras do bairro. O silêncio era insuportável, agora Mário se sentia ainda mais sozinho. Então, fechou a porta e deu-se conta de que só estava tão descontrolado porque precisava terminar o que havia começado: a carta. A carta que daria fim ao seu amor impossível. E o que mais o atordoava era estar sozinho, sem amigos, sem companhia e principalmente, sem seu amor.
Subitamente, Mário era só desânimo. Subiu as escadas, mergulhado numa tristeza que substituía sua tensão. Abriu a porta de seu quarto sem vontade nenhuma, suas forças reduziam-se a nada dentro de si, ele agora se arrastava pelo cômodo da casa solitária. Aproximou-se da cadeira, puxou-a e derramou-se pateticamente sobre ela. E logo após seu olho esquerdo arder sem piedade alguma, Mário sentiu uma lágrima teimosa atravessar seu rosto. Ele a limpou com prontidão. Não queria chorar. Era se rebaixar demais por um amor que ele mesmo colocaria fim. Ele piscou algumas vezes e encheu-se da força que sabia ter.
Sua mão, agora seca, segurava novamente o mouse, numa calma aparente. Seus olhos já não ardiam e encaravam friamente as palavras:
“Nós dois sabemos que não podemos continuar. As circunstâncias não nos permitem. As pessoas ao redor, nossos compromissos... até nossa família! Meu pecado maior é que mesmo sem poder eu te amo. Meu Deus, como amo! Mas não quero insistir nisso. Se, pelo menos, você estivesse do meu lado me apoiando. Mas não. Não consegue, não pode estar comigo... só porque você... Isto é, só porque eu... Ou melhor, só porque nós... Enfim, você sabe. Ainda não sei admitir isso pra mim. Talvez seja por isso que é tão difícil gritar nosso amor para os outros. Nos falta coragem?” – Assim começava a carta que Mário não conseguia terminar. Na verdade, ele não queria terminar nada. No fundo, ele era simplesmente o desejo de que aquele amor fosse aceito. Passou a mão pelo rosto e depois segurou, enlouquecido, seus cabelos.
Novamente descontrolado, notou que suas pernas batiam violentamente contra a mesa do computador. Mário enfrentava um dilema. Logo ele, um rapaz quase frio, que não acreditava em sofrimento por amor, ou melhor, que não acreditava nesse tipo de amor simplesmente. Mas alguém fez com que mudasse de idéia. Esse alguém era seu grande amor. Mário decidiu terminar a carta depois. Deixou o quarto. Inconformado com sua situação e enquanto descia as escadas, perplexo, Mário questionou a si mesmo num tom baixo e ríspido:
- Nossa! Como me tornei isso? Eu não queria! Eu não pedi! Eu sou um... Homem? Será que posso me dizer um homem? Quem sabe um nada...
Numa lentidão inédita, Mário finalmente desceu as escadas. Ainda segurava os corrimões, nostálgico, lembrando-se do tempo em que seu amor traduzia-se em cenas quentes, naqueles mesmos corrimões, por diversas vezes. Ele passou a ponta dos dedos suavemente pelo corrimão de madeira, em movimentos que subiam e desciam... Suas mãos deslizavam no objeto. De olhos fechados, e agora perdido numa expressão de satisfação intensa, as cenas de amor quente reproduziam-se em sua mente. Mário sentia como se tudo estivesse acontecendo naquele exato momento. O frio da madrugada já não estava ali. Agora, o calor da excitação residia em Mário novamente, seu corpo latejava num anseio enlouquecido e até o suor, causado por seus movimentos selvagens, escorria por sua testa enrijecida. Ele havia se transportado para o momento em que sua real atração foi constatada em atos, pela primeira vez. Involuntariamente, tinha as mãos no ar, como se estivessem presas, agarradas com desespero às costas da pessoa amada, que repousava sobre o corrimão marcado na noite que, naquele momento, dominava seu corpo e alma. Para completar seu devaneio, um arrepio atravessou sua espinha ao sentir a maciez daquela boca que beijava seu pescoço insaciavelmente. Agora seus olhos estavam apertados com força: havia chegado ao ápice do prazer. Era tão real!Para interromper seu sonho, Mário percebeu que o telefone já tocava insistentemente. ‘Outra interrupção?’, pensou ele, mais mau-humorado que da última vez. Atendeu. Do outro lado da linha, uma voz feminina e desesperada começou a falar:
- Mário? Me escuta! Eu estou disposta a esquecer tudo! Toda aquela sua bobagem... Sei que estava confuso. Sei também que você me ama.
- Luíza? Quê? – Mário perguntava confuso.
- Não precisa ser orgulhoso, Mário... Não comigo. Você sabe que aquilo era tudo loucura. Eu perdôo você. - Dizia Luíza, desesperada, mas convicta.
- Mulher, você está louca? Acha que eu acabei com nosso noivado por uma bobagem, por uma simples loucura? – Mário perguntava incrédulo.
- Você não perde essa mania de orgulho, não é mesmo? Mas olha aqui, quando você se der conta, vai ser tarde demais. Vai acabar tendo que se contentar com esse seu mundinho anormal. – Luíza prepotente, cheia de si, sentia-se a dona da verdade.
- A-NOR-MAL? – Mário repetiu enfaticamente – É isso, sua perua?
- Ai, Mário, você sabe que as pessoas nascem de um jeito... – Nesse instante, Mário já desligava o telefone, não queria terminar de ouvir as bobagens de Luíza, ainda que não se abalasse emocionalmente com elas. No entanto, revoltava-se ao perceber o quão desnecessária havia sido a ligação.
Agora, encarava a porta, precisava sair e ignorar a solidão de sua casa, de sua vida. Em movimentos calculados, pegou sua blusa, checou a carteira no bolso, destrancou a porta e abriu-a.
Com o rosto baixo, Bruno tinha a mão sobre a campainha, hesitava em apertá-la ou não, quando percebeu que Mário encarava-o, incrédulo. As palavras ficaram engasgadas, seu estômago revirou indiscretamente e seus olhos não queriam se fechar, ainda que ardessem na necessidade de piscar, os olhos de Mário não queriam deixar de ver aquele rosto.
- Boa noite? – Perguntou Bruno, desconcertado e nervoso.
- Como assim ‘Boa noite’? Eu acho que não era pra você estar aqui... Já tinha dito que não queria te ver – Mário se utilizava do tom mais indiferente que podia.
- Eu sei. Eu pensei que era um erro, mas eu pensei também que você podia estar precisando... – Mário interrompeu:
- De quê? De você? – Perguntou irônico – Mas é muita pretensão mesmo...
- Foi um erro eu ter voltado? – Bruno perguntou, num tom sincero e acanhado. Implorava internamente pelo ‘não’ de Mário, que não respondeu, perguntava aquilo a si mesmo por dentro. Mas não queria parecer fraco, indeciso, confuso. E então começou a balançar a cabeça, fazendo sinal positivo. Contudo, deu-se conta da gravidade do gesto e interrompeu-o. Procurou os olhos de Bruno, a fim de verificar qualquer reação, mas não os encontrou. De olhos apertados e rosto abaixado, Bruno tinha lágrimas saindo dos olhos.
- Mas Mário, eu voltei. Desisti de desistir. Não é possível que você já não... – Bruno resistia à indiferença de Mário.
- Não me venha falar de impossibilidades! – Interrompeu Mário, grosseiramente, mas ainda em tom baixo, frio e irredutível. – Era impossível eu estar numa situação dessas. “Meu Deus! Logo eu.” – Agora Mário hesitava em ceder ao choro que chegava discretamente – Abri mão de tudo, Bruno. E você foi um ingrato! Covarde! Simplesmente acabou. Acabou com a gente...
- Mas eu voltei! – Bruno agora chorava soluçante.
- E você acha que é assim? Bruno, eu morreria por você – Mário já não agüentava seu papel de durão, precisava ceder e chorar –, mataria por você! Você me descobriu, Bruno!
- E quero continuar te descobrindo. E quero que você me descubra também... – Bruno tentava conter-se e suas mãos já seguravam as de Mário.
- Eu desisti do meu casamento, meus amigos não me aceitaram, nem minha família. – Mário tinha o rosto encharcado pelas lágrimas. Perdia o fôlego, respirava desordenadamente. Agora ele era quem soluçava.
- Eu preciso de você. E não me importa se me quer de volta ou não! Você vai ser meu, Mário. Querendo ou não. Agora. – Bruno já havia se recomposto e agora tomava as rédeas da situação. Segurando Mário pelos braços com força, Bruno buscava olhá-lo nos olhos com firmeza. Algo nos olhos de Bruno fazia Mário perder-se ainda mais. Mário já não chorava, estava hipnotizado pelos toques de seu primeiro real e grande amor. A discussão finalizava-se no silêncio.
Os dois ainda não sabiam qual seria o rumo daquela história, mas, certamente, ambos queriam o mesmo para o desfecho daquela noite. Mário pegou as mãos de Bruno com delicadeza e agora o trazia para dentro de sua casa. O contato visual não era interrompido. Bruno sem se virar, bateu a porta.
O que aconteceu ao certo naquela casa, depois disso, não convém dizer, mas o fato é que o frio daquela madrugada não persistia. Não nas proximidades daqueles corrimões, pelo menos.


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Recebi alguns elogios; até a Élia gostou. Fiquei passada e de ego massageado (K).
Postei. Afinal, não é sempre que eu pego o fone, ligo o rádio e fico filosofando no caderno.