quinta-feira, 26 de maio de 2016

Auf wiedersehen

Lembro quando cheguei aqui. Quando entrei pela primeira vez na sua escuridão, tateei insegura as paredes em busca do interruptor. Tive certo medo de não ver mais do que dez ou vinte centímetros à frente. Eu não sabia o que havia lá ou o que houve antes de eu chegar. Pois então fui andando, ainda hesitante, ainda com as mãos nas paredes, procurando o acender de luzes. Eu queria ver, sabe? Queria ver do que era feita. Que cores tinha. Se ruía algum pilar. Queria ouvir o barulho das portas ao abrir. Queria até o esforço de fazer abrir. Tão estranho encontrar algumas trancadas. Não abriam nem à chave. Mas o tempo se encarregou. A gente vai ficando "de casa" e pega o jeito quando emperra, quando empena, quando fecha. Engraçado que, depois, parece que foi tudo sempre aberto, arreganhado. Como se fosse só chegar e entrar. Não me engano. Eu me lembro. Fui de parede em parede, tateando bem calminha com a ponta dos dedos e descobrindo o lugar. De sala em sala, pé-ante-pé, fui acendendo as luzes e deixando a sua própria luz iluminar. Algumas não acenderam de prima. Insisti no liga-desliga-liga-desliga algumas vezes. E ligou. Fiz festa. Daquelas caladas. De repente eu já tinha entrado em tudo. Todas as luzes acesas. Eu nada disposta a economizar esforços, queria aceso de ponta a ponta. Não só pra eu poder ver, como no início queria, mas, depois de um tempo, para que se autocelebrasse. E tudo reluzia. Foi muito bonito até o dia de precisar ir. Eu fiz força, mas não externei nenhuma. Quem me via saindo jurava que eu era dessas de ir. Desci pelas escadas. Porque queria demorar. Não pra mudar de ideia. Mas também não sei para que. Quando já tinha levado tudo pra baixo, subi eu, sozinha e sem nada nas mãos. Nem mesmo as chaves. Chave é pra abrir, eu não queria te trancar. E fui até o último quarto. A casa inteira acesa. Noite. E fui tateando as paredes. Dessa vez, me despedia. Queria roubar o lugar, a energia, as memórias, as expectativas. Mas isso nem se eu levasse as paredes. Ficaram ali eternizando silenciosamente minhas razões. Então, como quem desfaz o caminho, vim apagando as luzes, de sala em sala, pé-pós-pé. Na volta tudo deveria parecer mais fácil, familiar e simples. Mas cada luz que eu apaguei foi um sopro de vida que me levou. Éramos a sala, um interruptor, sua luz e eu. Fechei os olhos primeiro – não queria lembrar como era apagado quando cheguei , apaguei a luz e, por último, a porta. Escolhi guardar luminoso, mas a cada vez que me lembro só vejo a porta que bati para mim.
Adeus.

quarta-feira, 25 de maio de 2016

Para não voltar

Não volte pra casa, pois casa já não há.
Lar não há.
Também não há voltar.
Visto que se volta pelo caminho que se fez. E não há este caminho para percorrer outra vez. Você se foi e aconteceu o que acontece quando se vai: se vai.
Não volte pois não existe caminho para voltar.
Eu também não existo mais.
Sou outro.
Sou o deixado, o crescido, o docemente amargurado pelo som da porta que bateu.
O enlouquecido de imaginar seus passos voltantes pelo corredor até o quarto onde eu chorava sem lágrimas, sem nem mesmo estar lá.
Porque viajava em você. Indo para de onde você não vai voltar.
Se refizer o caminho, encontrar nosso portão, nosso quintal, nosso cão. não vai receber você, porque ele também não existe mais.
Não existe nosso.
Não existe nós.
Não existe eu.
Não existe você.
Existem apenas este tu que não me interessa reconhecer.
E este eu que prefere não te perceber.
Portanto, não vá! Voltar.
Porque, além de você, todas as coisas se foram e não existe mais este lugar.
Em algum tempo, terá sido como um sonho. E em mais algum, você vai se conformar. Delicada e dolorosamente, a cada vez que se lembrar que não existe nós, não existe casa, não existe lar. Não existe voltar porque também nunca existiu um você capaz de me amar.