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quarta-feira, 25 de maio de 2016

Para não voltar

Não volte pra casa, pois casa já não há.
Lar não há.
Também não há voltar.
Visto que se volta pelo caminho que se fez. E não há este caminho para percorrer outra vez. Você se foi e aconteceu o que acontece quando se vai: se vai.
Não volte pois não existe caminho para voltar.
Eu também não existo mais.
Sou outro.
Sou o deixado, o crescido, o docemente amargurado pelo som da porta que bateu.
O enlouquecido de imaginar seus passos voltantes pelo corredor até o quarto onde eu chorava sem lágrimas, sem nem mesmo estar lá.
Porque viajava em você. Indo para de onde você não vai voltar.
Se refizer o caminho, encontrar nosso portão, nosso quintal, nosso cão. não vai receber você, porque ele também não existe mais.
Não existe nosso.
Não existe nós.
Não existe eu.
Não existe você.
Existem apenas este tu que não me interessa reconhecer.
E este eu que prefere não te perceber.
Portanto, não vá! Voltar.
Porque, além de você, todas as coisas se foram e não existe mais este lugar.
Em algum tempo, terá sido como um sonho. E em mais algum, você vai se conformar. Delicada e dolorosamente, a cada vez que se lembrar que não existe nós, não existe casa, não existe lar. Não existe voltar porque também nunca existiu um você capaz de me amar.

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