quarta-feira, 16 de setembro de 2015

Irracionais Anônimos

– Oi, meu nome é Amanda. Eu tenho vinte e dois. E sou uma flertadora compulsiva. Desde muito cedo eu sou assim. Me apaixonei pelas palavras e depois não consegui parar de querer saber aonde elas levam, o que elas trazem, quem afastam, quem atraem.
E tem uma coisa sobre as palavras: os seres humanos estão, há esses séculos todos, tentando usá-las para explicar o amor.
Acho um tanto quanto ousado e ambicioso. E digo isso num tom bastante desacreditado. É, digo, sim.
Eu cresci ao som de músicas que se propunham a cantar o amor. E eu ouvi grandes poetas dizerem que não era possível explicar.
Camões veio avisar e Manfredini replicou toda a contradição do amor. A revisão final suprimiu o derradeiro e de arrebate verso que dizia algo sobre que coisa maluca incompreensível irracional és o amor, Maria.
E eu vim até aqui ouvindo  porém não escutando – os caras. Todas as vezes em que o nome do nocaute era o verbo apaixonar, eu me debruçava sobre aquela chama e queimava o papel com as minhas palavras destinadas a expressar o que era sentir aquilo vazando quente por entre meus poros. E podia dar, meus senhores, detalhes esculpidos.
Amar tem sido um sentimento tão concreto que eu pareci poder ver seus detalhes e traços. Como se nestas vezes todas eu pudesse encarar sua face e completar as peças mais delicadas da figura com o toque. De maneira que não restava sob o céu nada quanto ao meu amor que eu não pudesse dizer e redizer. Explicar e fazer entender.
Perceba: a facilidade de descrever uma foto. Estática imagem, cores seguras e fixas naquela eternidade reprimida no espaço de um momento que passou.
E lá no fundo a vozinha dos poetas clássicos me sussurrava que amor não padece de ter explicação.
Eventualmente, devo ter me sentido foda.
E segui ignorando os parças.
Bem, meus senhores, eis que a poesia virou conto. Acredito que virou, pelo menos, desde que apareceu essa princesa.
Apta a se destacar da mais distinta nobreza que você puder localizar no espaço da história da humanidade. Digo isso porque ela veio subverter tudo. Inaugurando uma dinastia própria.
Não me pergunte o que é o amor sob pena de ouvir uma resposta que muito se parece com o silêncio.
Mas, veja bem, parece-se com. Não o é.
Se puder localizar meus olhos ou descobrir em que direção olham – por vezes para dentro, para alguma coisa dela que do lado de dentro estou tentando guardar –, bem, se você puder fazer isso;
Se puder notar a descida do tom da minha ligeiramente grave voz. Se puder ir conhecer os caminhos por onde andam meus sonhos. Se puder se sentar sobre mim e penetrar a integridade do meu ser e me desvendar como numa possessão, vai perceber que eu não sei do que se trata a porra toda.
Talvez se, ao fazer tudo isso, você não entender nada, acredito que vou pensar que você conseguiu ter entendido.
Este amor como o dos poetas. Que se explica muito mal. E que está vez atrás de vez tentando se re-explicar mais e melhor.
Ela me tomou a convicção do poder de usar o que? As palavras. O poder de usar as palavras para trazer ao mundo tangível aquilo que não se vê, não se cheira. Tão somente se sente em lugares que, fisiologicamente, nem existem pra sentir! Você faz alguma ideia de como isso me pira?
Tomou-me a comodidade do amor pensado.  Do amor entendido. Do amor domesticado que, muito embora seja de saber seguir em chamas, não surpreende com a escolha dos caminhos que incendeia.
Mas ela. Você veja se consegue entender o que eu não sou ainda capaz de explicar. Ela, lá de longe, vai me puxando contra si própria. Eu sei lá se não é se feitiço. Porque, de fato, com meus cinco sentidos racionais não posso compreender como é que ela faz.
Como é que me fez(az) ignorar o que é de se ver em nome do que é, apenas e tão somente, de se desejar. Desejo que arrasta COMO SE inexistisse qualquer obstáculo. Mas como se existisse, ao menos, uma força invisível, laçada em mim, ligada nela, que me arrasta lenta gradativa e inexoravelmente em sua direção. Fazendo-me constantemente querer encostar.
Acredito que, se esse conto se passasse na inquisição, seu destino era queimar, não no meu amor, mas numa dessas enfadonhas fogueiras dos cinco sentidos por aí. 

L i s t e n i n g 
Monte Castelo - Legião Urbana

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